Tradutores

Samuel Putnam

Criado em: 31 de Agosto de 2024
Editado em: 11 de Julho de 2026

Samuel Earl Putnam, filho de George B. Putnam e Edith Cook Putnam, nasceu na vila de Rossville, no estado de Illinois, no condado de Vermilion, em 10 de outubro de 1892.[1] Desde muito jovem, Putnam já demonstrava uma certa predileção por atividades de cunho intelectual, tendo se voltado para a área da tradução ainda durante suas aulas de latim do ensino médio, cursadas na Hoopeston Area High School, em Illinois. O empreendimento desses esforços rendeu-lhe, mais adiante, uma bolsa de estudos da Universidade de Chicago, ainda no estado de Illinois.[2]

Ainda assim, problemas decorrentes da fragilidade de sua saúde impediram Putnam de concluir seus estudos. Apesar de não ter, de fato, se graduado, foi durante sua graduação que Putnam – ao encontrar uma oportunidade de nutrir cada vez mais seu apreço e sua curiosidade pelas palavras e pela atividade da escrita – iniciou sua carreira jornalística. Trabalhou, então, em uma série de jornais locais, como repórter, reescritor, revisor e redator convidado, e foi como redator que Putnam evidenciou possuir uma inclinação significativa para a crítica artística, dramática e, quiçá especialmente, literária Gardiner, 1971). Dentre os muitos trabalhos realizados por Putnam durante esse período, talvez o mais notável seja o de crítico de arte e literatura para o Chicago Evening Post, entre 1920 e 1926.[3]

Outro marco desta fase da vida de Samuel Putnam, que já havia se casado com Riva (née Sampson) Putnam, foi o nascimento do único filho do casal, Hilary Whitehall Putnam, no dia 31 de julho de 1926, quando ainda viviam em Chicago. Apesar da esposa de Putnam ter sido judia, devido ao seu comprometimento com o comunismo, ambos decidiram criar o filho de maneira secular e[4], antes mesmo de o filho ter completado um ano de idade, no final do ano de 1926, mudaram-se juntos para Paris, na França.

A estadia de Putnam em Paris pode ser considerada como produtiva e, ao longo dela, ele pôde dedicar-se a diversas empreitadas artísticas e intelectuais: estudou no Collège de France; foi jornalista, correspondendo-se com periódicos de Chicago e Nova Iorque, e enviando-lhes cartas acerca da cena artística parisiense; ocupou-se enquanto editor do This Quarter e da revista crítica The New Review; atuou como antologista, compilando escritos do período do pós-guerra para o volume intitulado The European Caravan: An Anthology of the New Spirit in European Literature (1931)[5]; buscou consolidar-se como tradutor, traduzindo textos do italiano, do francês, do espanhol, do sueco e do croata; finalmente, biografou ainda o escritor, padre e médico renascentista François Rabelais, publicando François Rabelais, Man Of The Renaissance: A Spiritual Biography em 1929.[6] Putnam viria também a publicar, em 1947, um memoir que ilustrava a vida da comunidade de expatriados americanos em Paris, intitulado Paris was our Mistress: Memoir of a Lost and Found Generation (1947), e que é hoje tido como uma de suas principais e mais significativas obras de autoria própria.

De todo modo, os Putnams retornaram aos Estados Unidos da América em 1933, principalmente devido a problemas financeiros, e passaram a residir na Filadélfia a partir de 1934.[7] Durante essa fase, Putnam buscou sustentar-se e sustentar sua família, por intermédio de suas traduções do francês e do italiano, ainda que seu interesse já se voltasse ao português brasileiro e à literatura brasileira em si – setor este que, aos olhos do mercado editorial, ainda era isento de apelo comercial.

Adicionalmente, enquanto o país buscava lidar com o duradouro impacto causado pela Grande Depressão, Putnam tornou-se conhecido por estar abertamente alinhado politicamente e ideologicamente à esquerda comunista, contribuindo regularmente para jornais e revistas dedicados à causa até meados dos anos 40 – como o Partisan Review, o New Masses e, em especial, o The Daily Worker, fundado pelo partido comunista norte-americano.[8]

O interesse de Putnam pelo Brasil e pela literatura brasileira evidencia-se por meio das inúmeras resenhas de obras literárias de autores brasileiros, de mais variados gêneros, que ele escreveu para a coluna Books Abroad, entre 1933 e 1938.[9] Porém, suas contribuições mais notáveis para a área dos estudos culturais e literários brasileiros ocorreriam na década seguinte, já como tradutor. Em 1944, Putnam publicou, pela editora da Universidade de Chicago, sua tradução de Os Sertões, de Euclides da Cunha, cujo título em língua inglesa foi Rebellion in the Backlands (1944). Nesta edição minuciosamente anotada e explicativa, Putnam buscou traçar, em seu prefácio, paralelos entre os acontecimentos narrados em Os Sertões, a Guerra Civil estadunidense, e a recente entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, valendo notar ainda que, para os norte-americanos da época, o romance teria sido tido e lido mais como uma narrativa factual do que uma obra essencialmente literária, classificado pela editora universitária como melhor pertencente a seção de “Literatura/História” (Milton, 1997).

No ano seguinte, Putnam tem publicada sua tradução de Terras do Sem-Fim de Jorge Amado, pela editora Alfred A. Knopf, intitulado The Violent Land (1945). Ambos estes trabalhos de tradução de Putnam foram bem recebidos pela crítica. Finalmente, após ter aceitado o desafio de debruçar-se sobre um dos maiores marcos da sociologia histórica brasileira, Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre (1933), Putnam publicou sua tradução da obra em 1946, sob o título em inglês The Masters and the Slaves: A Study in the Development of Brazilian Civilization (1946).

Putnam conseguiu realizar seu sonho de viajar ao Brasil em 1946, com o objetivo principal de dar uma série de palestras em diversos centros urbanos brasileiros, como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e no estado da Bahia. Em carta a Blanche Knopf, Putnam relata um dos pontos altos de sua viagem, informando-a de que acabara de ser eleito Membro Correspondente da Academia Brasileira de Letras. Também no exterior, em seu país de origem, a reputação e a carreira de Putnam como brasilianista e estudioso especializado em línguas românicas se consolidaram, contribuindo, enfim, para que ele se tornasse um membro de renome da academia. Em 1947, Putnam também foi vencedor do Prêmio literário Pandiá Calógeras, por sua divulgação da cultura brasileira e por suas contribuições nesta área.

 Em 1948, ele publicou um de seus projetos mais apaixonados e ambiciosos no ramo dos estudos literários brasileiros, o livro Marvelous Journey: A Survey of Four Centuries of Brazilian Literature (1948), cujo título fora inspirado  
em A Viagem Maravilhosa (1929) de José Pereira da Graça Aranha. Ainda no outono deste mesmo ano, Putnam se candidatou novamente, já desesperançoso, para receber uma bolsa Guggenheim – era, ao menos, sua quinta tentativa.[10] Em 1949, viu-se agradavelmente surpreendido ao receber sua bolsa da Fundação Memorial John Simon Guggenheim, no campo da literatura latino-americana.[11]

A mais famosa tradução de Putnam, porém, é, sem dúvida, aquela na qual ele trabalhou continuamente por 17 anos de sua vida e que culminou na edição, publicada em 1949 pela The Viking Press, de The Ingenious Gentleman Don Quixote de la Mancha (1949). Esta tradução, que preza pela utilização de uma variação da língua inglesa moderna e evita ser lexicalmente antiquada ou excessivamente complicada de ler, é tida, ainda hoje, como a tradução “definitiva” da monumental obra-prima de Cervantes.[12]

Acerca de sua prática enquanto tradutor, Putnam afirma, em carta abreviada ao editor da Books Abroad, publicada no Vol. 23 da mesma, sob o título Translating isn’t all beer and skittles, no verão de 1949: “Em conclusão: facilidade não é o suficiente. Sangue e suor – sim, e lágrimas também – são o segredo da coisa” (Putnam, 1949).

Apesar de possuir ainda diversos projetos e planos para futuras traduções, Putnam, que há tempos enfrentava uma piora em seu estado de saúde, veio a falecer num domingo, dia 15 de janeiro de 1950, aos 60 anos de idade, em decorrência de um ataque cardíaco, em sua casa em Lambertville, Nova Jérsei. Foi enterrado no Rossville Cemetery, num túmulo discreto onde, dezenove anos mais tarde, viu-se novamente reunido com sua esposa, Riva.[13], [14] Seu filho, Hilary Whitehall Putnam, carregou o nome da família adiante, vindo a se tornar um dos filósofos e intelectuais mais influentes do século, cujas ideias – muitas consideradas pioneiras – impactaram profundamente os campos da filosofia da mente, da metafísica, da lógica, da matemática e da filosofia da linguagem, e faleceu em 2016. [6]

 

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[1] FAMILYSEARCH. Samuel Putnam. Brasil, Cartões de Imigração, 1900-1980. [s.l.]: FamilySearch, [2025].

[2] TIME MAGAZINE. Books: Wineskin into Giant. [s.l.]: Time Magazine, [2025].

[3] ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Samuel Putnam | Editor, Author, Poet. [s.l.]: Encyclopedia Britannica, [2025].

[4] OUPBLOG. Hilary Putnam on mind and meanings. Oxford: OUPblog, [2025].

[5] O’GRADY, Jane. Hilary Putnam obituary. The Guardian, 2016.

[6] ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Samuel Putnam | Editor, Author, Poet. [s.l.]: Encyclopedia Britannica, [2025].

[7] O’GRADY, Jane. Hilary Putnam obituary. The Guardian, 2016.

[8] SPECIAL COLLECTIONS RESEARCH CENTER. Samuel Putnam Papers. Carbondale: Southern Illinois University – Special Collections Research Center, [2025].

[9] ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Samuel Putnam | Editor, Author, Poet. [s.l.]: Encyclopedia Britannica, [2025].

[10] ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Samuel Putnam | Editor, Author, Poet. [s.l.]: Encyclopedia Britannica, [2025].

[11] NEWSPAPERS. Article clipped from Chicago Tribune. Lehi: Newspapers, [2025].

[12] TIME MAGAZINE. Books: Wineskin into Giant. [s.l.]: Time Magazine, [2025].

[13] FINDAGRAVE. Samuel Earl Putnam (1892-1950). [s.l.]: Findagrave, [2025].

[14] THE NEW YORK TIMES. SAMUEL PUTNAM, AUTHOR, CRITIC, 58; translator of Don Quixote and Works of Rabelais Dies – Won Brazilian Award. The New York Times, [2025].

[15] O’GRADY, Jane. Hilary Putnam obituary. The Guardian, 2016.

 



Traduções


AMADO, Jorge. The Violent Land. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1945.

ARETINO, Pietro. The Works of Aretino: Dialogues. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Covici-Friede Publishers, 1933.

ARETINO, Pietro. The Works of Aretino: Letters and Sonnets. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Covici-Friede Publishers, 1933.

CERVANTES, Miguel de. The Ingenious Gentleman Don Quixote de la Mancha. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Viking Press, 1949.

CERVANTES, Miguel de. Three Exemplary Novels. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Viking Press, 1950.

CUNHA, Euclides da. Rebellion in the Backlands. Tradução de Samuel Putnam. Chicago: University of Chicago Press, 1944.

FREYRE, Gilberto. The Masters and the Slaves: A Study in the Development of Brazilian Civilization. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Alfred A. Knopf,
1946.

RABELAIS, François. The Portable Rabelais. Tradução de Samuel Putnam. Nova Iorque: Viking

 


Produções Bibliográficas

 

PUTNAM, Samuel. François Rabelais, Man of the Renaissance: A Spiritual Biography. Nova Iorque: J. Cape and H. Smith. 1929.

PUTNAM, Samuel. Paris was our Mistress: Memoir of a Lost and Found Generation. Nova Iorque: The Viking Press, 1947.

PUTNAM, Samuel. Marvelous Journey: A Survey of Four Centuries of Brazilian Literature. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1948.

 

Como citar o verbete

PISETTA, Lenita Maria Rimoli; DENSER, Camila Mirio. Samuel PutnamIn: LITERATURA BRASILEIRA TRADUZIDA. Perfil de tradutores/as. Disponível em: https://literaturabrasiltraduzida.com.br/detalhe/105/. Acesso em: dia/mês/ano.

Referências bibliográficas

Entrevistas